domingo, 13 de dezembro de 2015

Bárbara Guerra Leal...uma cientista portuguesa, com certeza...




Num país, onde a ciência é tão maltratada ( e os bolseiros também), a jovem Bárbara estuda, com alma e coração, uma doença que afecta milhões no mundo inteiro... um mundo, para muitos, desconhecido e imenso de ciência, comportamentos, presenças e ausências.
Querem espreitar o universo desta cientista dedicada à epilepsia?

Comecemos pelo início... o que é a epilepsia?

A epilepsia é a doença neurológica mais frequente em todo o mundo afectando 4-6 em cada mil habitantes num total de mais de 50 milhões de pessoas em todo o mundo. Estima-se que haja cerca de 50 novos casos por 100 mil habitantes por ano. A maioria destes casos surge em países subdesenvolvidos. Esta doença afecta pessoas de todos os sexos, idades, raças e classes sociais. O termo epilepsia designa um grupo de síndromes que se caracterizam pela ocorrência de crises epilépticas recorrentes. Estas crises surgem quando há desequilíbrio na actividade cerebral. Em situações normais, os nossos neurónios são excitados para que haja transmissão de uma “mensagem” que nos faz responder a determinado estímulo do meio e que se manifesta numa determinada acção do nosso organismo, por exemplo uma contracção muscular. Mas depois de essa mensagem ser transmitida, os neurónios são inibidos para que não haja uma estimulação em excesso. Numa crise epiléptica estes mecanismos de excitação e inibição estão desregulados fazendo com que haja uma “híper-excitação” neuronal ou seja uma “hiperactividade” (digamos assim) celular.  Esta actividade elétrica neuronal altrada é breve, surge repentinamente e pode afectar momentameamente a maneira como a pessoa se move, se comporta ou se sente. 
 
Nasce-se epiléptico ou podemos tornarmo-nos epiléticos?
Pode nascer-se epiléptico, por exemplo epilepsias originadas por malformações corticais. Ou uma pessoa pode tornar-se epiléptica, por exemplo epilepsias que se desenvolvem após um traumatismo crânio-encefálico. Eu acredito, no entanto, que mesmo nestes casos tudo depende da nossa constituição genética (que nasce connosco) que condiciona toda a resposta do nosso organismo ao ambiente que o rodeia.
Bárbara junto da imagem de um neurónio, em Paris.
 
Existem vários tipos de epilepsia? Mais perigosas e menos perigosas?
 
Sim existem diferentes tipos de epilepsia. As epilepsias podem ser classificadas segundo a causa – metabólica, imune, estrutural, genética ou de causa desconhecida – e podem ainda ser classificadas de acordo com a localização da crise – generalizada (afecta ambos os hemisférios cerebrais), parcial ou focal (em que a actividade anómala se restringe a um região cerebral). As crises parciais podem ser simples em que não há perda de consciência mas as pessoas podem ter movimentos espasmódicos de uma parte do corpo ou auras sensitivas, epigástricas, olfactivas ou emocionais como por exemplo um medo inexplicado. Esta manifestação variada depende da área cerebral afectada. Nas crises parciais complexas a pessoa parece consciente mas está “irresponsiva” com um olhar distante ou movimentos rítmicos repetidos. As crises tónico-clónicas generalizadas são das mais perigosas. Nestas crises há contração simultânea de todos os músculos durante um curto período de tempo podendo haver perda de consciência e até paragem respiratória. Esta contracção é seguida de movimentos espasmódicos. A seguir a esta crise pode haver momentos de confusão mental e sonolência com dores de cabeça e dores musculares. Algumas pessoas têm crises tipo ausências com breves momentos de perda de consciência podendo haver movimentos rítmicos repetidos ou apenas olhar vazio e o retorno ao estado normal acontece rapidamente.
 
O diagnóstico da epilepsia é fácil? As pessoas podem estar atentas a determinados sinais?
 
O diagnóstico de epilepsia é essencialmente clinico com recurso a meios complementares como o electroencefalograma (EEG), a ressonância magnética (RMN) ou a tomografia axial computurizada (TAC). Convém referir que cerca de 10% da população mundial pode ter uma única crise epiléptica na vida devido aos mais variados factores como hipoglicemia, drogas ou outros. Estas pessoas não se consideram epilepticas. Para haver o diagnóstico de epilepsia tem que haver a ocorrência de pelo menos duas crises epilépticas “não provocadas”. De qualquer forma sempre que uma pessoa apresente algum destes sintomas, ou tenha uma crise o mais aconselhado é consultar um neurologista que depois o encaminhara para fazer os exames adequados.
Como deve agir quem está perto de um familiar, ou amigo, quando tem uma crise?
Primeira coisa é não entrar em pânico. Se for o caso de uma crise tónico-clónica generalizada deitar a pessoa e colocar um casaco, a mão ou algo para proteger a cabeça de bater no chão ou objectos, Quando a convulsão acabar colocar a pessoa na posição lateral e alargar a roupa à volta do pescoço. É importante que não se se dê de beber, nem se coloque nada na boca do doente durante a convulsão. Não se deve tentar acordar nem levantar nem forçar a pessoa a ficar quieta. Deve sempre acompanhar a pessoa até que a consciência seja recuperada e a respiração volte ao normal. Em casos de auras ou ausências deve-se proteger o doente de algum perigo iminente e ficar com ele até recuperar a consciência. Quando não se sabe o que fazer, se as crises durarem mais de 5 minutos, se houver muitas crises repetidas sem recuperação de consciência entre elas ou se for a primeira crise da pessoa deve-se ligar para o 112 ou para a linha saúde 24.
Que estilo de vida se pode/ deve recomendar a um epiléptico? É sabido que, o descanso é essencial, certo? Alguns cuidados a ter?
O descanso é muito importante sim. É importante ter um sono de qualidade e em quantidade em horários regulares. E depois ter um estilo de vida saúdavel como uma alimentação equilibrada. Em casos de crises causadas por factores externos (como vídeo-jogos ou luz) evitar esses factores. E ter sempre muito cuidado com a medicação. É fundamental fazer sempre a terapêutica como receitado pelo médico.
 
A que tipo de congressos vais?
Vou a congressos de diferentes tipos nacionais e internacionais. Vou a congressos de neurologia mais voltados para a parte clinica mas que dedicam uma parte das suas sessões à parte de investigação mais básica e vou também a congressos de genética.
Posters da Bárbara, num congresso, em Londres.
 
 
Em que país, a investigação nesta área, se encontra mais avançada?
Há grupos muito bons e de referência em vários países como a Holanda, Inglaterra, Estados Unidos. Uma coisa que se tem vindo a verificar, e ainda bem, é que estes grupos têm colaborado em grandes investigações conjuntas. O grupo de investigação de que faço parte foi já convidado a participar num grande estudo genético que envolveu vários países europeus e que era liderado por um grupo de Londres. É importante começar-se a perceber que estas investigações conjuntas é que nos vão permitir avançar no conhecimento da epilepsia. Estas colaborações são sem dúvida fundamentais.
 
Como vai a saúde da investigação em epilepsia, em Portugal?
Vai mal, infelizmente… e o problema é que não é só a área da epilepsia afectada mas sim toda a investigação científica. Houve muitos cortes nos apoios que o estado dá à investigação. Cortaram fundos aos institutos, diminuíram o número de bolsas para doutorandos e pós-doc. E cá não há como existe, por exemplo nos Estados Unidos, mecenas ou apoios privados. Tirando poucos e raros apoios de indústrias farmacêuticas e de pequenas bolsas atribuídas, por exemplo pelas ligas de cada doença, o grande financiamento da ciência em Portugal vem do Estado. E com estas medidas que estão a ser tomadas está cada vez mais difícil fazer investigação científica em Portugal.
 
Há cura para a epilepsia?
Neste momento, não. A cura implica que se saiba qual o mecanismo que leva ao desenvolvimento de epilepsia e qual a sua origem e isso não acontece na maioria das epilepsias. O que se consegue é controlar as crises epilépticas com medicação. Esse controlo das crises é conseguido em cerca de 70% dos doentes e há até casos de doentes que ao fim de vários anos podem deixar de tomar medicação. Os cerca de 30% dos doentes que não respondem à farmacoterapia (refractários) outras opções terapêuticas como a electroestimulação, a aderência à dieta cetogénica (rica em gorduras e quantidades reduzidas de hidratos de carbono e proteínas) ou a cirurgia podem ser consideradas. Claro que tudo depende das características das crises epilépticas e dos doentes em questão (e isso é uma área clinica na qual não expert). Por exemplo nem todos os doentes são candidatos a cirurgia. E mesmo depois da cirurgia (em que é removida a área em que se verifica a actividade celular anormal) é necessário que os doentes tomem medicação pelo menos durante algum tempo.
 
Na pesquisa que fiz sobre este tema central da nossa conversa, encontrei informação sobre a Associação Portuguesa de familiares, amigos e pessoas com epilepsia. Quão importante poderá ser para um doente, ou familiar, juntar-se a uma associação que atua no âmbito do voluntariado, serviço social, consulta de psicologia, grupos de ajuda mútua?
Na minha opinião é essencial que as pessoas, doentes, familiares e amigos mais próximos, se informem bem sobre o que é a epilepsia, como actuar, quão importante é tomar a medicação e fazer a terapêutica adequada. Muita dessa informação é transmitida, claro, pelo médico e equipa que seguem esses doentes. Mas, pelo menos para mim, é importante as pessoas fazerem parte de uma liga ou associação de doentes. Estas associações, além do apoio logístico que podem dar, são muito importantes para os doentes e familiares perceberem que não estão sozinhos. Para poderem partilhar experiências e poderem contar a sua história.
 
Tens algum feedback da marginalização social perante os doentes epiléticos como, por exemplo, no emprego?
Eu não contacto directamente com os doentes e como o trabalho que desenvolvo não tem muito a ver com dados psicossociais não te posso dizer muito sobre isso. Sei que os doentes mão podem exercer todo o tipo de profissão. Por exemplo as que envolvem manuseamento de máquinas ou condução são mais difíceis de ser exercidas por doentes epilépticos. Isto por questões de segurança não só de terceiros mas também do próprio doente. Sei também que a taxa de desemprego e muito superior nestes doentes comparativamente à população em geral. Mas de resto não te sei dizer mais nada…
A “Epilepsia é mais do que ter crises”?
Sem dúvida que sim, é muito mais do que isso. E esse é precisamente o tema lançado pela liga internacional contra a epilepsia (ILAE) na companha de 2014/2015. E esta frase pode ter duas interpretações. Por um lado temos os doentes que têm a epilepsia controlada com medicação diária e que aos poucos começam a retomar as suas actividades quotidianas. No entanto, estes doentes vivem na angústia da possibilidade de ocorrência de uma nova crise epileptica. Para estes doentes “epilepsia é mais do que ter crises” significa que há vida para além das crises epilépticas. Por outro lado temos os casos mais graves que são os que não são controlados com medicação em que “epilepsia é mais do que ter crises” nos leva a perceber que associado às crises epilépticas existem alterações noutras áreas por exemplo cogniticas, sociais e comportamentais. Este grupo de doentes tem maior índice de morbilidade e mortalidade
 
Sendo tu, uma “menina das ciências”, consegues divagar pela literatura e outras artes? Que mais te preenche para além da ciência? Fala-me das tuas paixões…
Sim tem que haver tempo para tudo. E passarmos tempo a fazermos outras coisas que gostamos ajuda-nos, penso eu, a sermos melhores pessoas e consequentemente a sermos melhores investigadores. A ciência é o meu trabalho mas é também uma paixão que se completa com outras. Gosto muito de fotografia e de cinema (não me considero cinéfila mas sim uma viciada :p é uma boa maneira de por algumas horas conseguirmos fugir à realidade) Adoro viajar: ter contacto com outras culturas e costumes, visitar locais com que sempre sonhei, ver in loco imagens que se conhece só de postais ou de livros… é indiscritível e um prazer imenso. Mas também adoro passear pelo ”meu Porto” com as suas ruas encantadoras. As leituras é que não andam assim muito bem apesar de gostar muito de ler (uma outra forma de “viajar”). Neste momento (e é uma vergonha dizer isto) além do necessário para o trabalho, leio muito pouco (cerca de 3 livros por ano). Leio essencialmente livros de suspense, policiais e alguns romances históricos. E também faço algum desporto: com algumas caminhadas e corridas ;)
 
O que te faz SER Feliz?
Faz-me feliz saber que as “minhas pessoas” estão bem, sou feliz quando chego ao fim do dia e sinto que cumpri a minha missão.
Sou feliz quando estou com os meus amigos.
Sou feliz porque tenho a sorte de trabalhar na área com que sonho desde miúda. E se é verdade que, nem todos os dias correm bem, temos que aproveitar os momentos felizes ao máximo e perceber que a felicidade está nestas pequenas coisas que fazem parte do nosso mundo!
Granada
 
Pateira - Aveiro
Bélgica
 
 
 
E é assim que nos despedimos desta cientista... entre o estudo e as viagens.
Dois caminhos felizes a inspirar todo um universo de leitores sedentos de conhecimento.
Obrigada, Bárbara!
 
 
Aos meus leitores, agradeço a fidelidade e as partilhas que têm vindo a fazer com que o "Conversas Felizes" seja, cada vez, mais conhecido.
Até à próxima conversa!
 
 
Inês Monteiro
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

sábado, 18 de abril de 2015

... Raquel Martins, a Psicóloga da Felicidade...






Conheci a Raquel Martins, há um bom par de anos, como paciente das suas consultas.
Juntas, fizemos um caminho paralelo de orientação e aprendizagem, intuição e desbloqueios.
As nossas histórias cruzaram-se no âmbito profissional e, hoje, somos amigas.
Sou fascinada pela sua forma de estar na vida, pelo olhar tranquilo, pela paz que emana, pelos projetos fantásticos que, a qualquer momento, cria, estrutura, planeia e concretiza.
A Raquel é psicóloga num estabelecimento prisional e trabalha na Made in You, onde criou "A Consulta da Felicidade"...
Recostem-se no divã e deixem-se levar por mais uma história de vida interessante e genuinamente feliz...
 
 
O que te fez escolher Psicologia? 
Quando escolhi ser Psicóloga tinha 15 anos. Nem sabia bem o que era ser Psicóloga! Mesmo hoje em dia é sempre uma identidade que construo em parceria com todas as pessoas com quem trabalho.
Voltando aos 15 anos… Era uma adolescente e vi-me forçada a escolher um sentido profissional. Já questionava tudo o que fosse relacionado com o sofrimento humano, a justiça social e a felicidade.
Comecei a perceber que todos temos que fazer constantes escolhas e que essa capacidade determina em grande medida a forma como lidamos connosco e com as consequências dos nossos atos.
Adorava tudo o que fosse relacionado com o desvio (filmes, livros, documentários) e o lado “mais obscuro” do Ser Humano. Adorava conversar sobre a vida e comecei a perceber que todas as pessoas têm o poder de construir ou privar-se da felicidade por responsabilidade própria, através de escolhas e trajetórias de vida que em algum momento se viram envolvidas. Tive bons professores, cruzei-me com bons livros, sempre adorei perceber as causas de tudo.
Escolhi nessa altura que queria entrar na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto e trabalhar num Estabelecimento Prisional. Licenciei-me na área do Comportamento Desviante e da Justiça, com equivalência a Psicologia Clínica e da Saúde em 2007, tendo concluído um Mestrado em Temas em 2009.
Durante os meus estudos académicos e estágios lidei sempre com populações com algum grau de exclusão Social, como prostitutos (as), toxicodependentes, vítimas de crimes, delinquentes juvenis e reclusos.
Atualmente, trabalho no Estabelecimento Prisional do Porto há 6 anos, algo que escolhi com 15 anos! Acredito que quando alimentamos algo na nossa mente e decidimos um caminho a seguir que, inevitavelmente, a vida nos mostra exatamente o que pedimos. E acho que a vontade de ser Psicóloga veio daí, por entender que os nossos pensamentos, emoções e comportamentos são decisivos para determinar sentidos de vida. Ser Psicóloga é um trabalho de construir sentidos e isso sempre me atraiu.
 
 
 
Já fazes Psicoterapia há uns anos e neste momento tens um projeto muito interessante que é a Consulta da Felicidade, na Made in You.
Fala-nos um bocadinho deste sonho tornado realidade. 
Sim, faço Psicoterapia desde 2007. O Made in You nasceu em 2011 e é um projeto ligado à Psicologia e Desenvolvimento Pessoal com vários serviços, nomeadamente Psicoterapias da Criança, Adolescente, Adulto e Idoso, Avaliação Psicológica e Terapia de Casal.
A Consulta da Felicidade é uma intervenção desenvolvida em 2014, mais ligada à área da Psicologia Positiva que retira o foco da doença, para focar nas virtudes pessoais da pessoa, para que ela possa desenvolver capacidades e potencial para atingir objetivos mais adaptados aos níveis de bem-estar que pretende atingir.
A Consulta da Felicidade está dividida em 4 sessões (o Pack Felicidade), realizadas durante um mês, em 4 semanas consecutivas: Forças, Reflexão, Planeamento e Ação.
Qualquer pessoa pode solicitar este serviço. Mesmo aquela que apenas pretenda conhecer-se melhor. Normalmente, numa consulta inicial a pessoa é aconselhada sobre a melhor terapia no seu caso.
Podem também solicitar gratuitamente o “Rastreio da Felicidade” que é uma atividade de aconselhamento.
 
 

Tem tido resultados muito interessantes, porque ajuda na tomada de consciência e reflexão acerca dos eventos de vida mais traumatizantes e que criam uma forma de funcionamento específica. Todas as sessões vão no seguimento de criação de estruturas de vida mais saudáveis que promovem melhorias significativas no bem-estar subjetivo de cada um.
Por outro lado, tem sido um desafio interessante, pois é uma forma de empreendedorismo na Psicologia e desmistifica a ideia de que só vai ao Psicólogo quem “está maluco” ou “doente”. Claro que cada vez mais as pessoas estão mais informadas e eu sou daquelas que defendo que todas as pessoas, tal como têm um médico de família, poderiam ter desde logo acompanhamento psicológico. O Auto-conhecimento ajuda no entendimento de estados e emoções e na sua gestão mais equilibrada para que, dessa forma, tudo o que a pessoa concretiza e faz está mais relacionado com o que realmente lhe faz bem.
 
 
Achas que hoje em dia as Pessoas estão preocupadas em ser Felizes? 
Acho que preocupação anula a Felicidade J. Aparecem pessoas realmente preocupadas com o seu bem-estar e com vontade de se ocuparem com a sua Felicidade.
A maior parte dos casos estão relacionados com ansiedade, com dificuldade em gerir o tempo, os papéis, por problemas financeiros, relacionais, por luto, eventos traumáticos e quadros depressivos.
Acho que a Sociedade promove uma série de distrações e “hipnotismo social” e que, a certa altura, as pessoas ficam desorientadas, sem saber muito bem onde estão. O trabalho é fazer com que consigam desenvolver um olhar mais interno e que descubram que o estado de Felicidade depende muito mais dessa descoberta em primeiro lugar, do que qualquer situação que aconteça externamente. É como um mecanismo que se retroalimenta. Se eu estou bem, tudo à minha volta estará também muito melhor.
Mas esse estado de impaciência perante a vida, a não resignação perante a adversidade e a vontade de melhorar sempre está cada vez mais presente nos Portugueses que procuram este tipo de intervenção para o seu desenvolvimento pessoal.
 
No teu caminho, a par deste projeto, trabalhas com reclusos em estabelecimento prisional…. Como abordas a felicidade em pessoas que estão privadas da liberdade? 
As pessoas que se encontram privadas de liberdade por incumprimento legal são, obviamente, pessoas que são mais do que o crime que cometem. São pessoas que têm família, um trajeto próprio de vida, uma identidade e que têm muito mais de semelhante do que de diferente, comparativamente aos que não estão privados de liberdade, pelo menos física. Porque há muita gente privada de liberdade, mesmo sem o estar, efetivamente, intramuros.
O trabalho que normalmente desenvolvo tem a ver com a tomada de consciência do crime e das causas da reclusão, a responsabilização, a aceitação e adaptação ao contexto. Porque quem está privado de liberdade está constantemente a lidar com a frustração e com a aparente perda de identidade. O apoio pretende a gestão dos sentimentos de culta, revolta, estados agressivos. Claro que há uma infinidade de casos. E nem todos podem ser abordados da mesma forma e os resultados dependem muito da motivação do indivíduo e da sua trajetória anterior. É bastante complexo ser-se Feliz preso.
O importante é saber que o sofrimento existe e a sua gestão depende da atitude mental e da descoberta das causas e de si mesmo. O ser humano precisa aprender a capacidade de adaptação aos contextos e às vezes isso leva o seu tempo e a terapia passa por diversas fases. De avanços e recuos, de sucessos e fracassos. A Felicidade posso chamar-lhe aqui como a capacidade de adaptação e resistência perante a adversidade. Um ser adaptado sente-se melhor, do que aquele que luta contra a realidade. Um ser adaptado mais facilmente se inclui, sem perder a sua identidade própria. No fundo, a liberdade constrói-se.
 

Quão desafiante é para ti, trabalhar com pessoas que estão fechadas, “castigadas” e com anos de reclusão pela frente? Como trabalhas os sonhos dessas pessoas? 
O trabalho é feito no sentido que a pessoas não percam a capacidade de sonhar ou que constantemente reconstruam um sentido e quadro de referência e isso depende de vários fatores.
Construir sonhos é dar sentido, desafiar-se, ter objetivos. Se isso não acontece os estados depressivos reativos à situação instalam-se e as ideias suicidas aumentam.
Considero fundamental fazer desenvolver competências pessoais e sociais, melhorar a auto-estima, aumentar a prática de desporto. O equilíbrio pelos dias pode já ser um sonho! Quanto melhor estiver agora, mais apto estarei para viver um outro sonho em liberdade.
 
Há uma continuidade do trabalho que fazes na prisão, nas consultas do Made in You, ou são espaços e assuntos de cariz diferente? 
Digamos que é tudo diferente e tudo igual. Porque um Psicólogo sempre trabalha com um indivíduo na sua circunstância própria, independentemente do modelo de intervenção que utiliza ou local em que está.
No Estabelecimento Prisional do Porto trabalho com uma equipa multidisciplinar e  realizo terapias de Grupo em Programas de intervenção específicos, como ligados à Toxicodependência e Prevenção do Suicídio. Aqui as intervenções em crise são mais frequentes, comparativamente à Clínica Made in You, em que as marcações e atendimentos são mais estruturados.
 
Na Made in You já fizeste um workshop de Meditação que foi um sucesso…
Que impacto pode ter a meditação diária, nos dias corridos que todos levamos? 
A Meditação pode ter impacto a todos os níveis (físico e psicológico). É um momento de Ação consciente – MeditAÇÃO, em que a pessoa vai Ditar algo a si própria sobre o que se passa no seu mundo interno (Vou me ditar algo, digamos assim). É apenas um exercício de concentração que auxilia no processo de auto-conhecimento e consequente cura.
Existem benefícios psicológicos como: melhoria na qualidade do sono aumento dos níveis de concentração, permite a identificação e controlo mais eficaz sobre as emoções perturbadoras, como a raiva e a ansiedade, apreciação mais profunda do presente que é uma dádiva, maior controlo dos pensamentos e melhoria da comunicação entre os níveis consciente e inconsciente.
Existem várias técnicas que podem ser utilizadas na prática da Meditação e que é muito útil aprendê-las. Todas as pessoas podem meditar e não precisam pertencer a nenhum movimento oriental para tal. A Meditação como prática Ocidental já existe há muitos anos e pode perfeitamente ser praticada na nossa cultura como um método terapêutico também extremamente eficaz.
 

Para quem não fez o Workshop, por onde começar? 
Pode começar agora mesmo! A Meditação não necessita de ser praticada apenas num local isolado, com posições específicas. Pois bem, para quem quer começar pode apenas focalizar neste momento a sua atenção para si e auto-observar-se como se fosse um elemento neutro que apenas observa o que se passa. Pode questionar-se: O que estou a fazer neste momento? Quais são as minhas sensações físicas neste momento? Qual é o meu estado mental neste momento? Como estou a viver? Até que ponto tenho domínio sobre a minha vida? Isto já é meditar.
Pode também sentar-se confortavelmente num local onde saiba que não vai ser interrompido (a), numa posição confortável, com uma música que seja do seu agrado e começar a concentrar-se nos movimentos respiratórios, através da respiração abdominal. Existem centenas de exercícios respiratórios.
Pode simplesmente contemplar um objeto, um ser vivo e perceber o que o mesmo lhe transmite. Pode focar num tema que considere curativo, virtuoso e simplesmente canalizar o pensamento para palavras e sensações relacionadas com esse tema, reforçando para si o estado que quer atrair.
Para dar continuidade é preciso que se pratique, enquanto se caminha, em casa, no trabalho, a conduzir, na natureza, em qualquer local! Quanto mais for repetida mais os benefícios começam a sentir-se e, a partir de certa altura torna-se uma prática tão natural como alimentar-se ou dormir.
 
Tu és uma “nascente” de boas ideias… Qua projeto podes partilhar connosco que vás implementar a curto/médio prazo? 
Obrigada J. É verdade, existem centenas de projetos que podem ser implementados!
A médio prazo gostaria de iniciar um grupo de Meditação semanal, desenvolver mais workshops relacionados com a gestão emocional e stress e coach individual.
Penso também num projeto mais alargado a nível Nacional com algumas valências de intervenção em crise. Este mais a longo-prazo. 
Quem quiser fazer uma consulta contigo, onde pode recorrer? 
Basta marcar consulta ou solicitar esclarecimento de dúvidas através do 91158258 ou ceder a www.madeinyou.pt. Podem também acompanhar as novidades no facebook: https://www.facebook.com/madeinyou.pt?ref=ts&fref=ts  Likes, likes likes !
A Made in You fica na Rua Serpa Pinto, nº 10, 2º andar, no Porto, no Edifício da Farmácia Barreiros.
 
Nunca pensaste em escrever um livro? São tantas as pessoas a publicar livros na área comportamental e de auto-ajuda? Nunca surgiu algo diferente neste formato? 
Já pensei sim e já tenho algumas ideias inovadoras nesse aspeto. Aguarda novidades! Dois anos no máximo J
 
O que te faz ser Feliz? 
Simplesmente estar em contacto com aquilo que eu Sou para optar e escolher de acordo com isso mesmo J.
Não faço depender a minha felicidade de acordo com o que eu posso repentinamente perder, porque inevitavelmente perderei tudo um dia. Posso sentir-me triste por vezes, alegre outras vezes, mas tento também não me identificar com estados passageiros, porque é o que são.
Sou otimista e se imagino algo no futuro, estou já a visualizá-lo agora.
Posso dizer que me sinto uma pessoa Feliz, mais ainda se vir os outros também assim.
 
Gostei muito de responder a esta Entrevista, extremamente bem estruturada e transportou-me ao meu passado, presente e futuro. Extremamente terapêutico! Obrigada Inês e Parabéns pelo projeto!
 
Espero que, depois desta conversa, se sintam preparados para mudar as vossas vidas para melhor... seja através de auto-análise, meditação, prática de Yoga, frequência de workshops ou, mesmo, arriscando uma destas consultas como desafio e barómetro do estado do caminho de cada um.
 
Raquel, muito obrigada... pela entrevista, por estares sempre aí...
Conta comigo para o grupo de meditação semanal...
Embora seja uma prática diária minha, em grupo, a energia é potenciada e o equilíbrio que cada um consiga alcançar é, por certo, ainda mais enriquecedor.
 
Caros leitores e amigos, obrigada por estarem aí e apoiarem este meu projeto de Conversas Felizes... prometo uma nova conversa igualmente interessante para muito breve...
Até lá!
 
Inês Monteiro

domingo, 22 de março de 2015

Nita Domingos...

Há pessoas que cruzam o nosso caminho e se tornam uma bênção.
Foi o caso da Nita Domingos, uma "menina-mulher" cheia de coragem, esperança e gratidão pela vida.
Esta é uma partilha íntima e pessoal, por isso, não estranhem a troca de afectos...

 
 
Quem é a Nita Domingos?
 
Uma jovem muito intensa, cheia de força e vontade de fazer acontecer. Teimosa, obstinada, feliz e perfeccionista, que vive para o seu mundo.
 
 
Tinhas 3 anos quando perdeste a visão e, aos 6, é-te diagnosticada neurofibromotose tipo II. Percebeste, nessa altura, o que se estava a passar? O que te diziam os médicos? E os teus pais?
 
Não me apercebi bem do que se tratava e, por um lado, é mau... por outro, faz parte... eu cresci assim, cresci a ter de lidar com isso, mas não cresci de modo diferente. Claro que, aos meus pais, deve-lhes ter caído o chão, mas nunca desistiram de procurar o melhor para mim, para a minha saúde e para a minha vida. Por isso, estou-lhes eternamente grata. Tenho muita sorte nos pais que tenho.
 
 
 
Ainda muito pequena, fizeste várias operações fora do país e perdeste a audição... a tua infância e adolescência difere, em quê, das outras crianças? Ias à escola? Fazias as mesmas coisas que as outras meninas, apesar das tuas "limitações"?
 
Fazia exactamente tudo o alguém "normal" fazia. Eu era uma excelente aluna, fui campeã das olimpíadas de matemática, na escola, fui durante anos seguidos delegada de turma... vivi sempre muito intensamente. Perdi a audição aos 17 e saía na mesma, sentia a vibração. Aguentava horas a dançar. Eu expunha-me às situações - claro que, havia sempre quem apontasse o dedo ou olhasse torto, ou comentasse mas, isso não me incomodava de todo...eu tenho algo maravilhoso, que é o meu amor-próprio, o meu amor à minha vida. Eu desviava a cara e saía do lugar onde não me sentia bem ou, então, ridicularizava a situação.
Sempre tive bons amigos, lutei muito por isso e, como era uma espécie de psicóloga, sempre tive muita coisa por perto para me entreter a cabeça e criar sinergias com as pessoas. Adorava ir à escola. Queria ser sempre a melhor. Queria sempre mais. Trabalhava para isso e nunca aceitei fazer testes diferentes ou ter mais tempo porque via mal ou ouvia mal. Nunca quis ir por aí. Queria ser igual em tudo e, por isso, quem tinha de fazer um esforço acrescido era eu. E fi-lo e faço-o.
 
 
Tens, neste momento, 24 anos... vives com um tumor na cabeça e outro na garganta... irradias felicidade e fazes dela o teu projecto de vida... Como é que reagem as pessoas que estão à tua volta? Ninguém consegue ficar indiferente à tua atitude positiva perante os desafios que a vida te colocou...
 
Na verdade, tenho mais tumores... eu estou minada, tenho uns cinco na cabeça, dois na garganta, etc... Mas, são benignos e, uma vez que só vejo de um olho, tudo o que quero é que eles estejam lá quietos, façam a festa, mas não afectem mais a visão. Se assim for, estamos todos bem aqui dentro de mim. Se passarem para a visão do olho direito ou me criarem muitas dores, aí, estamos mal, mal, mal... Muitas vezes, os médicos e as pessoas que me conhecem dizem que houve troca de exames, que não é possível eu ter essas tretas todas e conseguir o que consigo.
 
Acerca do projecto da felicidade... Bem, quando tu passas por dezenas de cirurgias, quando perdes e perdes os teus sentidos, quando passas dias no hospital, tu começas a relativizar as coisas e começas a perceber que atitude positiva muda tudo. TUDO! A minha constante busca pela felicidade fez com que eu aguentasse e aguente firme, e pense sempre que, amanhã vai ser melhor se eu fizer por isso. É um projecto e exige muito esforço e trabalho mas, pelo menos, não quero que a minha vida seja em vão. Quero mais, quero sempre viver mais intensamente. E também, repara, eu tenho uma saúde chata, ok mas, ela não é a minha vida... a minha vida tem tanta coisa bonita, pessoas tão maravilhosas que constituem o meu mundo, o mundo que eu protejo tanto e tanto luto para que se mantenha feliz. Sou muito, muito generosa no amor incondicional. Sou porque sinto. Se não sinto, nada feito.
 



Onde é que vais buscar forças para teres sempre um sorriso e transbordares tanta energia?

Não é sempre, sempre... Também tenho momentos menos bons. O que me leva mais abaixo não é a tristeza, é a exaustão, quando fico esgotada. Mas, como te disse anteriormente, eu tenho uma vida intensa, uma vida cheia, tenho imensos sonhos já realizados, tenho uma família incrível, uma irmandade espectacular e amigos TOP. Gosto imenso de quem sou, gosto imenso de viver e sei que não vou andar aqui sempre - nem tu, nem ninguém - e, por isso, enquanto aqui estou quero mesmo aproveitar, quero mesmo ser feliz, quero mesmo sentir o elixir da vida.

O que te fez escrever "Viver é mágico" e "Que a felicidade vire rotina"?

Sempre gostei de ler, sempre gostei de escrever e, por isso, a escrita de um livro sempre esteve presente. O "viver é mágico" é a minha história, o que me aconteceu em 19 anos de vida... o "Que a felicidade vire rotina" é como eu lidei com isso, o que eu aprendi, o que eu posso transmitir e a mensagem que eu quero deixar.


Tu trabalhas paralelamente em duas empresas ( Portugal e Angola).. o que fazes dentro delas?

Trabalho em mais mas, sim, essas são as duas principais. Faço um bocadinho de tudo - hoje em dia, temos de ser polivalentes - mas, essencialmente, parte de gestão e administração.

Sentes que és uma pessoa abençoada, apesar de tudo?

Não tenhas dúvida, meu amor. SOU MESMO. A vida tirou-me com uma mão e depois, deu com duas :-)


Muitas são as pessoas que se deixam afundar no sofá, pessimistas, perante os dias de stress e o parco dinheiro... se pudesses, o que lhes dirias?
 
É preciso termos muito, muito cuidado com o stress... ele leva-nos ao esgotamento, à falta de sensibilidade pelas coisas mais simples e mais bonitas da vida, numa espiral completamente descendente onde parece que a vida passa ao lado. É preciso sermos pro-activos. As queixas deixam as coisas exactamente como elas estão. Temos de ser um bocadinho inteligentes nesta coisa da vida. Queres resultados ou desculpas? É que, não consegues as duas coisas ao mesmo tempo.
 
Em 2012, participaste em bastantes palestras... estiveste, inclusive, presente no TedxOporto... Quão valiosa foi esta experiência e porquê?
 
Estive, sim... e ainda hoje dou várias palestras para as Universidades. Mas, o Tedx...ai, o TED foi encantador, enternecedor... as pessoas, a energia, todo aquele mundo incrível a andar para a frente na vida, a inspirar... e, mais do que tudo, ter sido convidada pelo Manuel Forjaz... o Manuel era um mestre, era o meu grande ídolo, era alguém que muito admirava. Aprendi tanto com ele e tenho tantas saudades...
 
Tens medo da morte?
 
Das pessoas que amo, tenho que me pelo. Mas, tento nunca deixar nada por fazer ou dizer. Eu sei que tudo muda muito depressa e é por isso que sou tão intensa. Amanhã, pode ser tarde para expressar o que sinto, o meu amor e a minha gratidão. Amanhã, pode ser tarde para abraçar, para amar, para dar... e é por isso que eu faço tudo hoje... o mais possível. Saudades e arrependimentos não trazem ninguém de volta.
Acerca da minha morte... não tenho medo. Tenho medo de sofrer e, se algum dia, estiver num sofrimento interminável, a eutanásia será a minha escolha.
 
Os teus projectos passam pela comunicação e pelos afectos?
 
Sempre! É como se fosse o meu outro lado, o meu respirar... nas grandes empresas estamos sujeitos a elevados níveis de pressão, stress, confusão... muitos número, muita lógica, muita razão... é por isso que sinto que, depois, ao fim do dia ou de manhã - que é geralmente quando escrevo - preciso da catarse, preciso de ouvir o meu coração, preciso de me reequilibrar, preciso de sentir...
 
És vaidosa? Gostas de te cuidar?
 
Sou qb. Não tenho muita paciência ( nem tempo) e, por isso, cuidar de mim, sim; arranjar, também mas, sem perder muito tempo, por favor... porque, fontes de stress já há imensas e não tenho de criar mais uma...
 
 
"Hoje é um bom dia para ser feliz"? O que te faz SER Feliz?
Estar aqui a escrever-te... conseguir levantar-me da cadeira e andar, conseguir ver, conseguir sentir. Ter os que amo comigo. Conseguir fazer, fazer mais, pensar melhor, controlar melhor a minha mente. Conseguir agradecer, conseguir dar, dar, dar... amar, amar, amar...
 
E assim aconteceu... mais uma amizade para a vida na sintonia de uma vontade genuína de ser feliz!
 
 
Inês Monteiro
 

terça-feira, 17 de março de 2015

... Carla Matilde... a enfermeira de urgência...

Muitas são as notícias que nos invadem sobre o desgaste de trabalho na área da Saúde.
Sem falar em doenças, nem reforçar as feridas abertas pelos media, sentamo-nos junto ao mar, numa conversa sobre paixão e dedicação, numa área em fase de exportação.
Connosco e consigo… Carla Matilde, a enfermeira e a pessoa, em simultâneo…
 
 
Enfermagem, porquê?
 
Enfermagem surgiu por acaso. Desde miúda que queria ser veterinária, mas como não tinha possibilidades económicas para ir estudar para fora (na altura o local mais perto onde havia o curso homologado era em Vila Real), comecei a ver outras possibilidades. E enfermagem foi-se afigurando um curso interessante e, ainda, com saída profissional. Contribuiu também para esta opção o facto de ter estado internada por uma cirurgia ao joelho, e lembro-me de ter falado com a minha mãe “Quero isto… ser enfermeira, cuidar dos outros”. E cá estou J Gosto muito daquilo que faço!
Há quantos anos trabalhas nesta área e o que mais gostas no exercício da tua profissão?
 
Trabalho nesta área há 10 anos. O que mais gosto é de poder ajudar os outros. Cuidar de alguém, poder estar ao seu lado, por vezes, nas necessidades humanas básicas, é algo que é muito nobre na minha profissão, e muito gratificante também.
O Serviço de Urgência é como nas séries e nos filmes? J Fala-nos de semelhanças e diferenças que possam existir…
Esta questão faz-me rir… Há cada “gaffe” nos filmes, no que toca a procedimentos, manuseio de material, descrição de quadros clínicos, entre outros. Às vezes, dá vontade de dizer aos produtores para, antes da realização do filme, se informarem como as técnicas realmente são; ou como se usa determinado material, porque para quem é da área, vêem-se coisas aberrantes, que se fossem feitas na realidade poderiam causar danos muito graves. A realidade não é como nos filmes, pelo menos naqueles que estou habituada a ver. Quando vemos séries, por exemplo, há aquele retrato da entrada na urgência com imensa gente à volta da maca, ordens a serem debitadas, a família aos gritos cá fora; e depois dessa “tempestade”, o doente aparece num quarto todo bonito, rodeado de todos os que lhe são próximos, e nem sempre é assim na realidade. 
 
Tens doentes que te marcaram?
 
Sem dúvida! Por questões de sigilo e privacidade, não vou descrever as situações, mas tive doentes que acho que nunca hei-de esquecer. Passo a citar um, no meu 1º estágio hospitalar, tinha um doente atribuído que deveria acompanhar desde a admissão até à alta; e o senhor “E” faleceu durante o estágio. Lembro-me tão bem de tudo, como se tivesse ocorrido na semana passada.
Não só coisas tristes. Há doentes muito castiços e com peripécias engraçadas que também não esqueço.
Tive um episódio em que um bêbado cantou uma serenata a mim e à colega com quem estava, tocando uma guitarra imaginária e tentando manter o equilíbrio numa pose trovadoresca de joelho no chão. Era tão engraçado o homem, no jeito de falar, nos modos exageradamente educados que usava, até a roupa!
Outra altura, estava eu na triagem e uma bêbada (também!) veio sentar-se a pedir-me emprego “oh menina, eu faço de tudo: arranjo unhas, sei varrer, sei tirar o lixo… não quer falar com o seu patrãozinho?” ;)
Podia sentar-me aqui uma tarde inteira e tinha sempre histórias ;)
 
E familiares de doentes?...  Por vezes, não é muito fácil lidar com os mesmos… como geres essas situações menos agradáveis?
 
     É verdade, nem sempre é fácil lidar com os familiares / acompanhantes dos doentes. No meu serviço, em particular, pela elevada afluência, pela falta de espaço adequado para tratar dos doentes e garantir a sua privacidade, pelo elevado grau de stress e exigência a que os profissionais estão sujeitos… Nem sempre consigo dar uma informação em tempo útil, ou falar com um familiar quando solicitada e, por vezes, isso não é bem aceite do outro lado. Chega a ser preciso algum “jogo de cintura” com algumas pessoas.
 
Como é que um profissional de saúde lida com a morte de um doente? A pessoa, por trás do profissional, lida melhor com a morte, em geral, mesmo na sua vida privada?
     Confesso que nem sempre lido bem com a morte. Há situações que não me custam tanto (espero não ser mal interpretada)…por exemplo idosos num estadio terminal, em que a morte é resultado da velhice, em que já não há mais nada para oferecer que lhes possa garantir qualidade de vida…a morte é um processo natural. Encaro melhor neste tipo de situações.
Já quando falece alguém jovem, ou alguém vítima de um acidente grave em que fizemos tudo e não conseguimos, ou alguma doença incurável que provoca sofrimento (estou a dar exemplos), tenho alguma dificuldade em digerir o momento. E então, se tiver que ser eu a tratar do corpo, fico abalada. Ao longo dos anos, vai-se aprendendo a gerir isto, mas não é fácil; e em especial, quando temos que encarar a família ou consolá-la perante a perda, é emocionalmente desgastante.
     Na vida privada, é ainda pior lidar com a morte, porque perdemos os “nossos”, sejam eles familiares, amigos, conhecidos… há que encarar e lidar com isso, faz parte da nossa jornada, não é verdade?
 
Como equilibras a tua vida profissional com a pessoal, sendo que, os horários desta área não são propriamente de segunda a sexta, das 9h às 18h?
 
         Não é por acaso que a enfermagem é das áreas profissionais (a par com outras, sujeitas a trabalho rotativo por turnos) onde há maior taxa de divórcios e de síndromes depressivos. Por vezes, não há vida social e mesmo pessoal, tem alturas que é difícil. Dormimos quando os outros estão acordados, nas saídas de noite andamos rabujentos, amuados, e quem não é da área nem sempre compreende. Temos um aniversário ou um evento familiar e não vamos porque estamos a trabalhar (e no Natal? Custa tanto…). Tenho este tipo de conversas com outros colegas e as opiniões são semelhantes. Tento ter um mínimo de folgas por mês, mas por vezes isso implica uma maratona de trabalho para as ter; e tento aproveitar o tempo livre da melhor forma.
 
E, por falar em vida privada… “há uma linha que separa” a vida do hospital da tua vida?
 
         Às vezes é difícil “desligar” quando saio do hospital. Venho para casa agitada, chateada por uma ou outra situação… e é engraçado, que quando saio com amigos ou colegas enfermeiros, num momento ou outro acabámos por falar em trabalho, seja da situação atual da profissão, seja de peripécias, do serviço em si. Portanto, a tal “linha que separa”, nem sempre separa ;)
 
Como ocupas os teus tempos livres?
 
     Gostava de os ocupar mais ;) ou melhor, de ter mais tempo livre! Gosto de ler, passear, estar com as pessoas de quem gosto, estar de “papo para o ar” sem fazer nenhum, depende do meu estado de espírito no momento.
 
 
O que mais gostas no Serviço de Urgência?
 
     O não haver rotina! Já passei pelo internamento e aí há determinadas rotinas de trabalho consoante o turno. Na urgência, entro ao serviço e trato do que aparece conforme a área em que estiver alocada. Há situações similares diariamente, mas cada doente é diferente.
 
Tens algum sonho nesta área, para lá do Hospital? Gostavas de dar azo a outros projetos na área da saúde? Se sim, quais…
 
         Sinceramente, não. E digo-o com tristeza. Ando um pouco desiludida com a forma como a enfermagem tem vindo a ser tratada pelos nossos governantes e pela forma como os enfermeiros são tratados nas instituições. Atenção, que só falo da realidade que conheço… Gostava de voltar a estudar, mas depois olho para os colegas que se especializaram ou que tentaram outro tipo de projetos dentro da instituição, e não há qualquer reconhecimento, incentivo (e não falo a nível monetário)…
Mais depressa me envolvo num projeto numa área fora da saúde do que ligada à mesma…
 
Qual o maior desafio que tiveste até hoje?
 
Já tive alguns… doentes críticos com os quais lidei na sala de emergência, comunicar uma má notícia, entre outros…
 
Como é que encaras medicinas complementares/ alternativas como a tradicional chinesa?
Não lhes chamo medicinas alternativas, mas sim complementares, pois acho que tanto a medicina oriental como a ocidental podem agir em sinergia de forma a dar o melhor ao doente. Os orientais têm algo que eu admiro que é o olhar o doente e não a doença, e olhar a pessoa como um todo. Na medicina ocidental há o cardiologista do coração, o nefrologista dos rins, etc; e não podemos tratar um órgão / doença isoladamente, pois faz parte de um todo que é o corpo. E se somarmos a isso a parte emocional do doente, a sua cultura, então é que não podemos mesmo ver a doença isolada. No meu entender, só há benefício quando ambas as medicinas são usadas em prol do doente.
 
O que te faz ser feliz?
Coisas simples… um dia de sol, os meus gatinhos, comer uma boa refeição na companhia de amigos / família, o meu afilhado, tomar um café a ver o mar, chegar a casa depois de um dia de chuva e vestir um pijama quentinho, estar à lareira… são pequenas grandes coisas que trazem momentos de felicidade.
 
 
 
E foi com sol que continuámos a conversar, entre o embalo da tarde e da noite…
Obrigada, Carla… garantidamente, muitos serão os leitores e profissionais da área que se irão rever nestas palavras….
 
 
Inês Monteiro