domingo, 6 de outubro de 2013

... Cuca Roseta...


É uma menina bonita e com uma presença que faz a diferença pela elegância e forma de estar… na vida e no fado.
Poucos serão aqueles que se lembram da sua voz nos Toranja… o Fado foi abraçado mais tarde… a sua voz não passou despercebida a nomes como Carlos Zel e João Braga.

Hoje, a minha conversa feliz é num páteo alfacinha, com cheiro a Terra, a Tejo, a Sonhos e a Fado…. Comigo e convosco, com muito orgulho e um enorme sorriso, Cuca Roseta! 



Cuca é mesmo o seu nome ou é um diminutivo, um mimo de quem gosta de si?
Cuca é mesmo o meu nome, foi-me dado pela minha irmã quando nasci e assim ainda me chama toda a família. Isabel um nome lindíssimo, mas com o qual não me identifico.

Antes da fadista, quem é a Cuca como mulher e mãe?
Sou uma mãe muito dedicada e uma mulher muito sensível.

Que estilo de música gosta de ouvir? Só Fado?...
Gosto muito de jazz, música clássica, também alguma música comercial, mas essencialmente jazz.

A voz serena e angelical misturam-se com uma forma de vestir e estar muito originais… como foi esse casamento com o Fado na voz da crítica?
Penso que quem me escuta com o coração percebe a paixão e o respeito que tenho pelo Fado e facilmente tudo o resto encaixa, pois é genuíno, e o que é genuíno não tem de ser explicado... é ser quem somos na nossa essência sem medo de ser criticado.

A sua beleza foi um facilitador ou, por outro lado, teve de dar “mais provas” que é muito mais que uma mulher bonita?...
Normalmente não é um facilitador, ao contrário do que as pessoas pensam. Existe muito uma ideia que quem tem boa imagem não pode ter boa voz. Mas depois ao vivo quando o sentimento e a verdade do fado falam por si, aqueles que o escutam percebem que a beleza é outra, é uma beleza que vem de dentro, que é inerente à arte e ao fado

Como nascem os seus discos? São “filhos” que se desejam e nascem ao fim de 9 meses ou tudo fica mais ao sabor do vento e, quando existe matéria para, fazem-se as últimas afinações e entra-se em estúdio?
Os discos podem ser considerados filhos... mais que isso, o culminar de um ciclo que se fecha e que é recordado para sempre... Evoluirá mas deixará saudade da inocência inerente à evolução. Contam as historias da melhor junção de fados e sentimentos, descrição da verdade e emoções sentidas desde o primeiro até ao estúdio para a gravação do segundo. Um disco conta também uma história, tem um tema, com imagens que se associam à história desse conjunto de histórias.



Palco ou Estúdio? Porquê?
No palco estão connosco muitas pessoas que trazem também as suas emoções e a sua energia. Essa nostalgia não se consegue no estúdio. O fado é um momento de partilha de emoções seja através do público ou de nós. No estúdio também se pode conseguir um ambiente especial, mas será sempre mais individualista.

Como se prepara para os concertos? Alguma superstição? Algum medo?
Medo sempre, mas coragem também, e responsabilidade. Apenas fazer silenciáveis, dar lhe o devido respeito, pois fala-se de intimidade e sentimentos.

Como lida com o público e a crítica?
Fazemos música para quem a sente ou para quem se move com ela. Quem não a sente não é nosso público, não há com que preocupar. Há que preocupar e respeitar aqueles que nos ouvem, que nos seguem, aqueles para o qual a nossa música faz sentido e os ajuda de alguma forma, seja chorando ou sorrindo mas, essencialmente, os reconforta de alguma forma. A critica normalmente, se não for bem fundamentada, vem daquele que não sentiu, que apenas viu do lado de fora ou procura comparação ou defeito. O fado não se compara, o fado não é superficial, o fado sente-se e partilha-se com quem está aberto a receber essa partilha e a responde também de forma genuína e intuitiva.

A sua imagem é a de uma mulher serena e de bem com a vida… é mesmo assim?
Penso que devemos agradecer cada oportunidade que nos é dada. Nesse sentido não sou ansiosa, pois não crio a expectativa de chegar a algum lugar mais ou ter mais do que aquilo que tenho.Cada dia que canto seja onde for, cada vez que partilho algum sentimento, sinto-me muitíssimo feliz de o poder fazer. Essa alegria e gratidão traz-me serenidade.

Consegue viver-se do Fado em Portugal?
Consegue, até porque nós viajamos muito.Temos um trabalho que é requisitado no mundo inteiro e até maioritariamente lá fora. Isso é realmente uma grande ajuda neste género musical pois é universal, não fosse património mundial.

Três palavras que definam o seu Fado…
Verdade. Essência. Genuinidade.

Se fosse Ministra da Cultura, se tivesse poder para agir, o que mudaria no panorama cultural português?
Mudaria inúmeras coisas mas, essencialmente, o valor que damos as coisas.

O que a faz Ser Feliz?
Agradecer as oportunidades e as possibilidades que tenho dia a dia e não desejar mais. Isso faz-me ser muito feliz. Viver um dia de cada vez.


Sou muito grata à Cuca por me ter proporcionado esta conversa, diferente, feliz...
Para quem pretender ilustrar as palavras com música, aqui ficam alguns vídeos....

Fado do Abraço

Fado do Contra

É Lisboa a namorar

"Rosa cor-de-rosa" com Ana Moura

Nos teus braços


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

... Isabel Oliveira

Bom dia!
A Entrevista a Isabel Oliveira foi publicada na Zen Energy de Outubro.
Em Novembro será publicada aqui, no meu blog!
Obrigada pelas v/ visitas!
Sejam felizes!

segunda-feira, 15 de abril de 2013

... Joana Vaz Teixeira

Foto de Manuela São Simão

Joana Vaz Teixeira, 32 anos, a viver em Londres há mais de 6 anos, decide despedir-se de um emprego “estável” e fazer uma viagem de 2 meses e meio pela América Latina.
Uma viagem que a mudou como pessoa e como ser humano: hoje, usufrui mais do Presente, dá mais valor ao tempo que partilha com as pessoas que ama… ultrapassou medos, manias e preconceitos. É, hoje, uma mulher mais madura e que vive no Agora.
Loucura ou arriscar a viver?
Acho que, a conversa e as imagens vão valer bem a pena…
Antes de mais e para fazer um enquadramento no que te levou a fazer um corte com um tipo de vida, para fazer um intervalo de viagens….o que te impeliu, há uns anos, a sair de Portugal e ir viver para Londres?

Eu fui para Londres em Fevereiro de 2007 por dois grandes motivos: um de carácter pessoal e outro profissional.
Desde os tempos em que estudava na Faculdade de Economia do Porto que ambicionava ir para Londres estudar ou trabalhar; queria testar-me e ver se conseguia "safar-me" noutro país. O ter-me apaixonado por uma pessoa que morava em Londres fez-me fazer as malas e ir.

Que mais-valias te trouxe esta cidade?

Em seis anos cresci muito.
Fui para uma cidade onde conhecia apenas duas pessoas: o meu namorado e o colega de casa -dois portugueses de Lisboa a viver em Londres há já alguns anos.
Foi a minha emancipação, a saída da casa dos pais.
Tive de aprender a fazer muitas coisas sozinha, ou sem ajuda de pais e amigos.
A cidade de Londres é fantástica, cheia de oportunidades a nível profissional e com muitas actividades para os tempos de lazer, mas é também uma imensa cidade fria, com muitas pessoas que estão apenas de passagem.
Facilmente arranjas o que eu chamo "amigos de pub" com quem podes ir tomar uns copos no final do trabalho, mas encontrar amigos para ter uma conversa mais profunda e para te ajudarem quando estás mais em baixo, já é mais difícil.
Eu tinha uma rede imensa de amigos de longa data aqui no Porto e separar-me fisicamente deles foi muito doloroso e demorei anos a fazer amigos de verdade em Londres (Passei a valorizar de uma forma muito especial os meus amigos e os momentos que passo com eles).
Viver em Londres ajudou-me a ser mais "desenrascada".
Diz-se que os portugueses são muito desenrascados mas não vejo isso nos meus amigos. Acho que, talvez as gerações mais velhas sejam, mas a minha definitivamente não é: as gerações pós-25 de Abril foram muito protegidas e estamos sempre a correr para debaixo das asas dos pais que nos socorrem sempre.  
Londres ensinou-me a ser mais tolerante: numa cidade de mais de 8 milhões de habitantes existem muitos emigrantes e filhos de emigrantes; é uma cidade onde se falam mais de 300 línguas. Isso faz com que trabalhes com pessoas de diferentes culturas e backgrounds.
Tens, por exemplo, restaurantes de todo o mundo. Eu habituei-me a jantar em restaurantes indianos, vietnamitas, japoneses, tailandeses, até cheguei a ir a um etíope (onde se come deliciosamente e com as mãos - não há talheres).
Era frequente estar numa festa com australianos, italianos, escoceses, americanos, indianos, columbianos e, claro ingleses e portugueses. Tens cinema, espectáculos de dança, teatro, concertos, e uma oferta imensa da qual não consegues usufruir na totalidade pois no mesmo dia acontecem mil e uma coisas.
A outra mais-valia de Londres é que te permite viajar facilmente para tantos destinos: a Easyjet sai do Porto para 6 destinos e de Londres para cerca de 110.
Para quem adora viajar, como eu, isto é um paraíso de possibilidades. Um dia saí de Londres de manhã com dois amigos e fomos passar o dia a Bruxelas. Voltamos ao final do dia - de Eurostar são pouco mais de duas horas. Passeamos pela cidade de café e snacks na mão, a tirar fotos e a conversar. Um dia espectacular!
Viver em Londres tornou a relação com os meus pais e o meu irmão mais forte e intíma, passei a procurar estar com eles sempre que vinha ao Porto, a ter o tradicional almoço de família, mas também a fazer programas com eles, como ir passear pela Ribeira do Porto ou ir até ao Gerês. No fundo, passei a procurar ter tempo de qualidade com eles.

Em Londres, com casa alugada, amigos e emprego….muita gente te terá apelidado de “louca” por te despedires para viajares 2 meses e meio pela América Latina? Foi apelo? Foi destino? O que te fez “embarcar” numa viagem completamente desprogramada ( tu, que és tão organizada, metódica, sempre cheia de “to to lists”)?

Curiosamente não.
De todas as pessoas que me rodeiam (em Londres e Portugal) apenas uma me apelidou de louca.
Em Londres é mais ou menos normal as pessoas despedirem-se para procurarem empregos melhores ou para procurarem um novo rumo. 
Obviamente que vivemos num contexto económico e financeiro complexo e em que as oportunidades de emprego escasseiam. Mas eu acredito que as oportunidades vão surgindo se formos pacientes. E acredito ainda mais na necessidade de escutarmos o nosso coração e a nossa mente e realizarmos os nossos objectivos, sejam eles de carácter pessoal ou profissional. E viajar pela América Latina várias semanas era um objectivo. Assim, na altura em que senti que o meu projecto em Londres estava a chegar a uma fase derradeira, comecei a pensar em fazer uma pausa na carreira para me focar nalguns projectos mais pessoais. Em meados de Julho de 2012 um dos meus melhores amigos disse-me que se tinha despedido e que ia viajar durante cinco meses pela América Latina. E eu decidi juntar-me a ele.
Não fizemos grandes planos, de facto. O meu último dia de trabalho foi a 17 de Agosto e compramos as viagens de ida a 30 de Agosto.
A data escolhida foi 1 de Outubro e optamos por Lima para começar pois era o vôo mais em conta. Um mês apenas entre o dia em que compramos as viagens de ida e o dia da partida (uma das últimas coisas que fiz na manhã de dia 1 de Outubro foi comprar o vôo de regresso). Isso fez com que não houvesse muito tempo para planear. Tive de vender a minha mobilia, empacotar todas as minhas coisas, arranjar acomodação para as cerca de 50 caixas de bens materiais acumulados em 6 anos, tive de fazer as compras para a viagem (mochila, repelente, casaco corta-chuva, botas de caminhada, etc), fazer seguro de viagem, tomar as vacinas necessárias para ires para estes países (febre amarela, malária, febre tifóide, etc), e isto tudo enquanto viajava pela Europa em fins-de-semana prolongados que já estavam planeados e enquanto fazia sessões de maquilhagem e fotografia para uma amiga que estava a fazer um portfólio nessa área. E assim pouco tempo sobrou para ler sobre os países e para planear. Li sobre o Perú e sobre a Bolívia. Sabia que ia aterrar em Lima. Não sabia quantos dias ia ficar em cada cidade. E não sabia bem que países iria visitar além do Perú e da Bolívia. Aliás, quando entramos no Chile e chegamos à cidade de San Pedro de Atacama não fazíamos ideia do que fazer, que sítios visitar. Mas aí já nos tínhamos cruzado com outros viajantes e já tínhamos dicas de sítios a visitar. Em San Pedro de Atacama fomos a uma agência de camionagem munidos de um mapa do Chile e pedimos que nos indicassem locais a visitar na costa do Chile, seguindo viagem.
Como observaste e bem, eu sou imensamente metódica e organizada. Nas minhas viagens anteriores e nas minhas férias sempre organizei tudo com muita antecedência, como marcar hotéis e planear os dias com visitas a museus e igrejas, e com os trajectos delineados.
Aqui fui à aventura, com muito pouco planeamento. Não marcamos nenhum hostel com antecedência - apenas o de Buenos Aires, pois aconselharam-nos a fazê-lo ( Eu acho que, quando vais de viagem várias semanas, o melhor é não teres nenhum compromisso que te faça ter de estar num certo sítio a certa hora - excepto a viagem de regresso - O melhor é teres a liberdade de chegares a uma cidade e adorares e decidires ficar mais dias do que o inicialmente planeado). Eu fui para Buenos Aires com a ideia de ficar lá 4 ou 5 dias e fiquei mais de 10…
O contrário também é válido, pois se chegares a um sítio que não te agrada, podes apanhar a primeira camioneta disponível e sair de lá. O não ter tudo planeado de antecedência ajudou-me a aprender a ser mais descontraída, a não estar sempre a pensar no futuro e no que aí vem e a usufruir mais o presente.  

Perú, Bolívia, Chile, Argentina, Uruguai, Iguaçu, Paraguay….a mescla de histórias e culturas dá um livro…. O que mais gostaste? Que país/ cultura mais te fascinou e porquê?

Não consigo eleger um país ou uma cultura que me tenha agradado mais. Posso-te falar de algumas das coisas que mais gostei de ver e viver.
O Machu Picchu e a caminhada nos dias que antecedeu a entrada no complexo foram maravilhosos - apesar de eu ter ficado doente com uma intoxicação alimentar que me fez passar um dia inteiro sem comida enquanto caminhava 7 horas.  




O Lago Titicaca na fronteira Perú-Bolívia é lindissimo e as ilhas de ambos os lados são deliciosas.




A viagem de comboio que fiz de Cusco a Puno, atravessando os Andes, foi mágica.



O deserto de Uyuni é maravilhoso e a imensidão de branco é indiscritivel (deserto de sal).



A visita às minas de Potosi foi intensa, e até de rastos andei em alguns dos corredores usados pelos mineiros.




Ver o pôr-do-sol no deserto de Atacama foi uma experiência linda que recordarei sempre com muito carinho.



Valparaíso foi uma agradável surpresa com muita street art (que eu adoro), comida deliciosa e o primeiro café "decente" que tomei na América Latina.



Santiago do Chile foi fantástico pois é uma cidade muito simpática, cosmopolita, e onde finalmente encontrei sol e tempo de verão.




A viagem de Santiago (Chile) para Mendoza (Argentina) deixou-me de boca aberta depois de quase 30 curvas a subir os Alpes.



O dia em que andei de bicicleta em Mendoza ao visitar as quintas de produção de vinho, cerveza artesanal e compotas foi divertidissimo.




Buenos Aires é delicioso com o seu ar europeu mas o toque sul- americano… - ser galanteador é um estado de espirito e um estilo de vida. Adorei os mercados de rua, os restaurantes, os cafés, a street art, e a mescla de gente em BA.



Colónia do Sacramento, no Uruguai, é uma pérola preservada pelo tempo - uma cidade fundada pelos portugueses há cerca de 500 anos para ter acesso ao comércio que se fazia no Mar da Prata na costa de BA.



Adorei a imponência das Cataratas de Iguaçu, onde decidimos ir à última da hora.




Assunción, a capital do Paraguai, onde passei dois dias a sofrer com o calor e a humidade mas onde caminhei pela cidade o tempo todo e onde me senti estranhamente em casa.



Salta, no norte da Argentina com paisagens naturais de te deixar sem palavras.



Arequipa no Perú e o Colca Canyon, onde fiquei num oásis chamado Paraíso.



O meu último dia na América Latina, com um passeio de bicicleta por Lima.
As pessoas que conheci - os locais e os viajantes….


São países muito “coloridos” e ricos em artesanato….
Se tivesses que “pintar” cada um dos locais que visitaste com uma palavra, qual seria?

É dificil. Do que eu vi na América Latina acho que comum a todos os sítios que passei é a cor e alegria. Vi cor em todo lado: no artesanato, nas casas, e até na comida. Existem sítios muito pobres mas vês as pessoas com um sorriso nos lábios, a serem felizes. Quem me dera ver os portugueses mais sorridentes e coloridos.


Em algum momento da viagem te arrependeste ou tiveste algum medo que te fizesse querer voltar a casa?

Nunca. Nunca me arrependi da minha decisão de me despedir, entregar a casa que tinha alugado com amigos e ir viajar.
Nem durante a viagem nem depois.
E não tive nenhum medo nem nenhum receio que me tenha feito sentir vontade de voltar.
Pelo contrário, em Dezembro, só me apetecia continuar a viagem.

Que medos ultrapassaste?

Ultrapassei alguns medos, de facto. E alguns "pre-conceitos" ou "manias". Tinha imenso medo de voar e depois de duas viagens de 13 horas, já não estou tão assustada...
A primeira vez que atravessei uma ponte velha no Perú que abanava por "todos os lados" ia ficando petrificada de medo. Na minha última semana no Perú já saltava no meio das pontes que abanam. Habituei-me a comer em sítios no meio da estrada e no meio da montanha. Deixei de me preocupar se a cama em que eu durmia estava feita com roupa lavada ou não - o importante era ter uma cama para dormir, e não ser feita de cimento (como me aconteceu no deserto do sul da Bolivia). Tornei-me mais descontraída e paciente - na América Latina tudo funciona com um ritmo muito próprio e se todos os dias insistires em te comportares como europeu que és, vais-te desgastar, porque as coisas não mudam só para te fazer feliz. Tu é que tens que mudar e te adaptar.
Depois de ter saído à noite pela primeira vez usando uns ténis “all star” sujos e meios esburacados, as calças que usava durante o dia e um top simples, deixei de me preocupar com as "produções para sair à noite", que tanto tempo nos fazem perder.

Sentes que estes países poderão ser o futuro para novas gerações?

Sem dúvida, e a prová-lo está o facto de eu ter conhecido imensos portugueses a morar e trabalhar em Lima, no Perú.
Por muitos sítios que passei, nomeadamente no Perú, Bolívia e Paraguai ainda há muito para fazer. São países muito pobres, com falta de infra-estruturas e onde o conhecimento, o “know-how”, e pessoas especializadas fazem falta e são muito valiosas (E são sítios maravilhosos para se ter uma experiência de vida).
Em 2 meses e meio, eu habituei-me a viver com pouco: sinto falta de abrir a mochila e ter à minha escolha 3 pares de calças e 5 t-shirts.


Tenho saudades de ir para a montanha onde não há internet, electricidade, iphones.
Nós, na Europa, somos muito "mimados" e preocupamo-nos constantemente com coisas com as quais nem devíamos perder tempo a pensar. A meu ver, mais grave que a crise económica e financeira, é a crise de valores que atravessamos, e acho que experiências como a que eu tive nesta viagem ajudam a relativizar certas coisas e ajudam a encontrar o nosso centro.
Ando a ler um livro chamado Spark your dream de Candelaria & Herman Zapp e acho que esta passagem resume bem o que eu pretendo ilustrar:
"Gula, do you know why the condors can fly and we can't?" I ask him
"Because they possess wings. We instead have hands that we want to fill with many things that don't let us fly."

Esta viagem mudou-te, como pessoa?

Sim, mudou. Eu saí de Londres em Outubro de 2012 a pensar que ia voltar para lá no início de 2013 e retomar a minha vida.
A viagem fez-me perceber que não quero a minha vida de Londres como ela era.
Fez-me perceber certas coisas acerca de mim que eu desconhecia. Aliás, acho que qualquer pessoa que faz este tipo de viagem descobre coisas sobre si mesmo e volta diferente.
É impossível voltares igual.

Regressas a Portugal e ingressas num curso de fotografia, revês amigos, vives o Agora….e planos para o futuro?

Neste momento não tenho planos para o futuro.
Estou a fazer um curso de fotografia, pois sou muito amadora e uma das minhas resoluções de Ano Novo (influência londrina a fazer resoluções de “próximo ano”) foi aprender e desenvolver a técnica. Estou a fazer voluntariado no IPO.
Estou a aproveitar para estar com os meus amigos (alguns que não via há anos!!!
Estou a redescobrir a minha cidade, o Porto, que adoro.
Estou a pensar no meu futuro.
A pesquisar.
Estou a escrever um livro sobre a minha viagem.
Estou a viver um dia de cada vez e não me vou precipitar a tomar decisões, pois é importante arriscar e procurar ser feliz.

E o que te faz SER Feliz?

Eu sou feliz com uma máquina fotográfica na mão.
Eu sou feliz no meio dos meus amigos e da minha família.
Eu sou feliz com um livro e um café ou um chá ao lado.
Eu sou feliz a escrever.
Eu sou feliz a amar.
Eu sou feliz a entrar num avião e IR… 

Obrigada, Joana….iremos cruzar-nos, certamente, em próximas viagens….









domingo, 18 de novembro de 2012

...Marina Pacheco



Hoje, convido todos os meus leitores a escolherem a sua sala de espectáculos preferida e deixarem-se arrancar do chão num vôo de elegância e inteligência.
A minha convidada chama-se Marina Pacheco, é soprano e, nos seus 26 deliciosos anos conta já com um curriculum invejável no mundo da ópera.
O pano vai abrir…. Descontraiam e estejam atentos que esta conversa é um mimo arrepiante e sonhador!



Olá, Marina! A tua elegância vocal começa a brilhar pela Europa e a ser notícia em Portugal. Sempre foi este o teu sonho?
Olá, Inês! Sim, desde pequena que adoro cantar. É uma sensação mágica de felicidade absoluta. Sentia-me perfeitamente bem em palco (desde os Pequenos Cantores da Maia, onde fui admitida aos 5 anos). Em casa, brincava ao espelho imitando cantores e bailarinos. As artes de palco fascinam-me desde sempre, sejam elas quais forem! Sempre foi um sonho seguir uma carreira musical e ser uma artista, mas a certa altura tive de perceber se queria que fosse apenas um sonho ou lutar para que se tornasse a minha realidade. 
Tu cantas com uma segurança e maturidade de quem não tem 26 anos... isto advém de muito trabalho? Quantas horas cantas por dia e que cuidados tens com a voz?

Aos 26 anos, quase 27 (em Dezembro), olho para trás e sinto que sou o resultado de todas as vivências pessoais, académicas e profissionais que tive. Aprendi muito, absorvi muito e uso tudo isso para construir aquilo que sou em palco. Naturalmente há, em paralelo, um trabalho enorme solitário: estudo de partituras, trabalho de dicção, pesquisa histórica e cultural, trabalho de tradução...tudo o que envolve ir para palco segura de que sei o que estou a transmitir e que trabalhei tecnicamente para que a obra esteja no meu corpo e na minha voz.


"Yo soy Maria", de A. Piazzolla, com Olga Amaro no piano

Porquê a ópera?

A ópera foi uma descoberta curiosa. A minha família ouvia música clássica, logo o estilo musical não me era estranho. Aos 8 anos já admirava o Pavarotti, por exemplo! 
Quando ingressei nas aulas de Canto, aos 13 anos, com o professor Pedro Telles, queria apenas aprender a cantar, corrigir posturas e erros que pudesse ter adoptado e que fossem menos apropriados. Mas ele viu em mim mais do que uma voz bonitinha! Ele viu algo de artista e cantora lírica e desafiou-me a tentar! Eu não disse que não! Achava que era perfeitamente legítimo experimentar. Mas acabei maravilhada com o que podia fazer com a minha voz e que até ali nem desconfiava ser possível. Fascinava-me o desafio!! Sem dúvida. Comecei, então, a ouvir mais ópera, a procurar aprender mais. Fui assistir à minha primeira ópera no Coliseu do Porto com a minha mãe e lembro-me que o Pedro Telles interpretava o Dr. Malatesta no Don Pasquale. Adorei! A minha mãe também estava encantada. Levou-me aos bastidores para cumprimentar o meu professor! Ele disse-nos "a sua filha vai ser cantora de ópera!". A partir daí nunca mais parei!!!
Tu consegues sentir o quanto cresceste a nível vocal nos últimos anos?

É claro para nós cantores sentirmos o que evoluimos, seja pela natural maturidade física e emocional, seja pelo facto de sentirmos mais facilidade ou pela simples possibilidade de nos ouvirmos em gravações e podermos ter termo de comparação. Olho para trás e vejo evolução, assim como tenho consciência de que há ainda muito a crescer. É uma construção e uma aprendizagem contínua e eterna, algo que me fascina nesta carreira, pois adoro estar sempre a aprender.



Para quem te está a "ler" neste momento e pensa "como é que eu vou viver da ópera?"....o que terias tu a dizer?

Hoje em dia viver de qualquer profissão é uma incógnita. Logo, sinto-me extremamente feliz por poder fazer o que gosto. É necessário muito empenho e dedicação e ter consciência de que não há dias de semana e fins-de-semana ou que nos levantamos a tal hora e ao fim da tarde estamos livres para ir descansar. Muitas vezes não há férias e a noção de tempo não existe! É preciso um enorme investimento emocional, físico e económico para podermos chegar longe e viver da ópera/ do canto lírico!

Que importância tiveram para ti nomes como Pedro Telles, Jairo Grossi e o Coro de S. Tarcísio?
O Pedro Telles foi o meu primeiro professor. Devo-lhe o facto de ter seguido esta carreira, devo-lhe o espírito positivo e a coragem de lutar por algo que me faz feliz. Tornou-se um amigo e faz parte da minha vida duma forma muito especial!
O Jairo Grossi acompanhou-me inúmeras vezes. Deu-me conselhos, esteve lá quando precisei e foi responsável pela minha admiração pelos pianistas acompanhadores! O Jairo é um pianista maravilhoso e um ser humano fantástico. Tanto o Pedro como o Jairo me deram a oportunidade de partilhar o palco com o coro de S. Tarcísio, o qual dirigem brilhantemente! Foi uma honra trabalhar com estes três nomes e espero que em breve se repita, se as nossas agendas permitirem. 

A ópera também te permite viajar imenso e conhecer pessoas de outras raças e culturas.... curiosamente, o que vos une é a música e as histórias dos espectáculos onde actuas....

Esta carreira permite-me conhecer mundo, conhecer culturas e conhecer pessoas formidáveis! Tenho amigos em todos os cantos do mundo e, apesar de não ser possível falarmos todos os dias, sabemos sempre uns dos outros e torcemos pelas carreiras uns dos outros. Une-nos o nosso amor à música, o nosso espírito lutador de ir atrás de oportunidades e a enorme vontade de sermos reconhecidos nos nossos países e internacionalmente. Partilhamos as nossas experiências e acabamos por descobrir que temos amigos em comum!!!
Alguma sala de espectáculos que te tenha marcado em particular?

Todas as salas ganham uma magia especial para mim. Todas elas escondem histórias, todas elas me permitiram viver histórias! É uma honra olhar para trás e reviver os momentos passados nele e em tantos outros palcos.
Nesta vida tão nómada e musical, onde vais tu buscar mais prazer? Nos ensaios ou no palco?

Toda a instabilidade que esta vida musical me provoca é totalmente compensada pela performance em palco. Sinto-me totalmente realizada!!! Os ensaios representam todo o processo de construção de um espectáculo, mas é no momento de ir para palco que tudo ganha magia, pois nós artistas não existimos sem público e é quando o pano sobe e o nosso público está lá que tudo vale a pena! É para e pelo público que nós existimos!!!
"Nunca estás completamente vestido sem um sorriso..." Queres comentar? ( sorrisos)

Adoro esta frase! É do musical Annie... um dos meus favoritos! Adoro a história, a mensagem e as músicas. E numa delas, quando um grupinho de meninas canta no orfanato, onde não têm um pingo de carinho, mas mesmo assim conseguem sorrir, destaca-se esta frase.. Naturalmente tornou-se o meu lema de vida. Adoro sorrir! A vida é curta demais para a desperdiçarmos e um sorriso resolve ou ajuda a resolver tantas coisas.


Qual é o teu limite? Tu tens noção que podes vir a ser uma referência internacional neste género? - neste momento, tu és notícia nas melhores salas da Europa, nos Media Portugueses ( que, infelizmente, até nem costumam dar muito destaque a este género musical...)?

Não tenho limites, vou até onde me for possível. Adoraria ser uma referência internacional, mas ainda há muito para trabalhar e evoluir! Passo a passo vou vivendo as minhas conquistas e tentando manter os pés assentes na terra, percebendo que há muito a conhecer, a aprender e a melhorar. 
Neste momento, és a imagem de uma designer de jóias...As duas artes complementam-se? Brilham juntas?

Joana Ribeiro Joalharia é a marca de uma jovem designer muito talentosa. Identifico-me com a beleza do seu trabalho e aceitei, sem pensar duas vezes, fazer uma sessão fotográfica para a marca. A arte é arte, por isso todas as suas formas se complementam, resultando num brilho único. 
Como reages às críticas?

Reajo muito bem. A crítica é o que me faz crescer, logo, seja ela qual for, aceito e dou-lhe valor, procurando retirar tudo o que me possa fazer melhorar.
Para quando um espectáculo na cidade do Porto?

Dia 21 de Dezembro, às 21h, estarei na Casa da Música, na Sala Suggia, para um concerto de Natal, com a Orquestra Sinfónica do Porto e o Coro da Casa da Música. O concerto será dirigido por Christopher König.
Em 2013 voltarei a estar na Casa da Música, em Abril e ainda antes disso espero ter um projecto meu com a Olga Amaro e o actor/encenador Pedro Lamares a ser estreado na cidade do Porto, também. 
Já pensaste escrever a tua própria ópera?

Eu dediquei-me totalmente ao canto, logo não tenho qualquer competência para me aventurar na área da composição. Aquilo que me faz sentir realizada é pegar numa peça já composta e dar-lhe a minha interpretação. 
Achas que este género musical está muito longe daquilo a que a maioria dos portugueses dão valor? Será que a cultura musical ( e não só) devia ser uma disciplina obrigatória num ensino pré-primário? Como podemos mudar a mentalidade face a um género musical que muitos ainda colam a determinado estrato social?

Felizmente o gosto pela música erudita é cada vez maior e prova disso são as salas cheias de público (com uma percentagem de jovens bem considerável, sinal de que as mentalidades estão a mudar). Por outro lado, a quantidade de candidaturas ao ensino superior de música é cada vez maior. Também há uma aposta crescente por parte das Academias de Música e Conservatórios para criar condições a crianças de todas as camadas sociais para que possam ter acesso ao ensino musical e contacto com este tipo de música. A adesão é cada vez maior.
Naturalmente, há um trabalho de divulgação a fazer e é também importante a criação de estratégias para cativar todo o tipo de público.
Como está a tua Agenda até ao final do ano e onde é que as pessoas podem aceder aos teus próximos espectáculos?

O meu site www.marinapacheco.com será alvo de uma renovação, no entanto, a agenda está sempre actualizada. A minha página oficial do Facebook é a forma mais directa de contacto comigo e fonte de informação regularmente actualizada. Em www.facebook.com/marinapachecosoprano são partilhadas todas as conquistas, reportagens, novidades e actualizações de agenda. Procuro ainda responder a todos os que entram em contacto comigo!
Até ao fim do ano estou bastante ocupada com um espectáculo no Teatro Maria Matos, em Lisboa (A Africana) e o Concerto de Natal da Casa da Música.
O que recomendarias a alguém que tenha, como sonho, seguir esta área?

As palavras de ordem são persistência e força de vontade! Não é fácil escolher esta área como profissão, mas tendo consciência de que o retorno é extremamente positivo, tudo se consegue.

O que te faz SER feliz?
Poder fazer profissionalmente aquilo que mais amo na vida: CANTAR.


Marina, muito, muito obrigada! Foi um prazer revêr-te após tantos anos, sentir o quanto cresceste como cantora e como mulher e, acima de tudo, gostava de te dar os parabéns por te deixares ir onde te levam o coração e o sorriso.
Se não fôr antes, encontro marcado contigo na Casa da Música, no próximo dia 21 de Dezembro!


Só para terminar, dois vídeos ( o primeiro, irá relembrar a infância de muitos de nós; o segundo, uma belíssima reportagem da RTP no Programa 30 Minutos):



http://www.youtube.com/watch?v=6qrSqR_Hl8U&list=UUHbha3R10SNqqyJk_5xkEWg&index=11&feature=plcp


Despeço-me até à próxima conversa com uma pessoa improvável, num lugar perto de si....